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Gacetillas de Prensa | Figuras e acontecimentos de 2019: na votação online em curso, Ventura e Trump lideram desde o primeiro dia

Claudia Fernández y Só pra contrariar, las atracciones del Carnaval de Melo 2020

Margarida Matos Rosa Uma figura desconhecida do mundo mediático, veio meter as empresas na ordem em matéria de concorrência. Desde Abel Mateus, o fundador da Autoridade da Concorrência, que o regulador não tinha tanto protagonismo nem era tão temido. Assume como prioridade o combate aos cartéis e às práticas anti-concorrenciais com impacto significativo nos consumidores. Tem tido mão pesada nas coimas. Os seus três anos de liderança já levaram a coimas de €391 milhões. O verão foi verão agitado em matéria de Concorrência, com coimas recorde à banca (225 milhões) e os seguros (56 milhões) e raides mediáticos a grandes grupos privados na área da saúde por causa dos contratos da ADSE e dos resíduos. Antes o alvo tinham sido as telecomunicações e a distribuição. O objetivo é dissuadir os prevaricadores. Não teme os poderosos, uma atuação a fazer lembrar a influente comissária europeia da Concorrência, Margrethe Vestager. Há, porém, quem admita que ao disparar em tantas direções, Margarida Matos Rosa possa deixar o regulador sem capacidade de resposta na instrução dos processos, abrindo espaço para que as condenações sejam atacáveis em Tribunal

Na eleição da figura nacional de 2019, André Ventura, continua a liderar de modo destacado nas escolhas dos leitores do Expresso. A menor de 48 horas de fechar a votação online, o líder do Chega tem 90% das preferências, seguido de Jorge Jesus (3%) e José Tolentino Mendonça (2%).

Pelo sexto ano consecutivo, os leitores do Expresso, à semelhança do que fazem desde há várias décadas os seus jornalistas, elegem as personalidades e os factos mais marcantes destes 12 meses. A votação online decorre até às 14 horas do dia 13 de dezembro (sexta-feira desta semana).

No plano internacional, a liderança vai para Donald Trump (53%), mantendo assim o presidente dos EUA a primazia desde o começo da votação. Segue-se a jovem ativista Greta Thunberg (21%) e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson (15%).

Nos acontecimentos nacionais, também ocorre uma estabilidade dos resultados desde o primeiro dia. A rutura do SNS continua a ser o mais facto mais marcante para 62% dos leitores do Expresso. Em segundo lugar estão os protestos dos camionistas (17%) e em terceiro as eleições legislativas e a fragmentação do Parlamento (11%).

O mesmo acontece com o sentido de voto sobre os factos além-fronteiras, com poucas oscilações desde o primeiro dia. A preferência vai para a interminável saga do Brexit (32%), seguida dos protestos em Hong Kong (22%) e das manifestações pelo clima (18%).

A votação dos jornalistas do Expresso foi realizada num plenário na semana passada (dia 4 de dezembro), dando continuidade a uma das mais velhas tradições democráticas da comunicação social portuguesa. Neste ano, as escolhas foram discutidas e votadas por cerca de cinco dezenas de jornalistas.

Os artigos de fundo sobre os vencedores escolhidos pela redação do Expresso e demais informação sobre o processo serão publicados na edição semanal em papel de 21 de dezembro.

Os leitores do Expresso optam entre os mesmos acontecimentos e figuras que foram sufragados pela Redação.

Em baixo, pode votar na figura internacional de 2019, escolhendo um dos nomeados.

A guerra do ‘streaming’ As séries e os filmes em streaming entram-nos em casa todos os dias. E a oferta não para de crescer. A guerra não é nossa mas, lá fora, a indústria do entretenimento vive uma guerra sem cartel pelos conteúdos e, claro, pelo público. A jogada mais recente foi o lançamento do Disney +, que ainda não chegou cá, e que agrega a oferta do gigante americano onde se incluem, além dos clássicos da Disney, tudo o que é Star Wars, Marvel ou a carteira de produtos da 21st Century Fox comprada este ano por 71 mil milhões de dólares (64,4 mil milhões de euros) onde estão, por exemplo, os Simpsons. Em outro sintoma deste novo mundo, alguns jogos de futebol da Premier League inglesa são já transmitidos, em exclusivo, pela Amazon. As plataformas de streaming estão a mudar por completo o negócio da televisão e 2019 foi um dos anos em que a luta foi mais intensa.

A interminável saga do Brexit Foi ano de adiamentos (três deles) e de queda da primeira-ministra, prevendo-se agora que o Reino Unido saia da União Europeia a 31 de janeiro de 2020, isto é, mais de três anos e meio depois do referendo em que 52% do eleitorado decidiu que era melhor sair da organização, a que aderira em 1973. Theresa May falhou por três vezes a aprovação parlamentar do seu acordo e demitiu-se por altura das europeias, vencidas pelo Partido do Brexit de Nigel Farage. Boris Johnson garante que não pedirá mais tempo aos 27 (embora tenha quebrado idêntica promessa em outubro) e que tampouco prolongará o período transitório, que termina no fim do próximo ano. Ganhará com maioria suficiente para aprovar o acordo de saída renegociado e guiar o país para fora da UE? Poderá a oposição unir-se, à míngua de maioria conservadora, e convocar novo referendo? E, nesse caso, que novas divisões e resultados esperam os britânicos?

Convulsões na América Latina Um Presidente de esquerda caiu, outro de direita anunciou nova Assembleia Constituinte e, noutras paragens, as urnas ditaram mudanças de rumo num e noutro sentido. O certo é que o subcontinente atravessou 2019 por entre agitação política de alto nível. Na Bolívia, protestos após umas presidenciais duvidosas – pela recandidatura de Evo Morales contra a Constituição por si defendida e também contra um referendo; e pelos próprios resultados anunciados – conduziram à demissão do Presidente, que perdeu o apoio das forças armadas. No Chile o descontentamento com o Governo de Sebastián Piñera fê-lo prometer nova Constituição, que enterre de vez o legado da tirania de Augusto Pinochet. Mas também houve gente nas ruas da Colômbia ou do Equador e a Venezuela não está mais perto de ver resolvida a crise que a assola há anos. Com o Brasil polarizado, Argentina e Uruguai trocaram de chefia (aquela da direita para a esquerda, este no sentido inverso). As urnas também ditaram mudanças no Panamá, Guatemala, El Salvador, enquanto em Cuba uma nova Constituição foi aprovada em referendo.

Expansão da extrema-direita espanhola Depois da estreia na assembleia regional da Andaluzia, em dezembro de 2018 – com 12 deputados e tornando-se essencial para uma aliança de direita que afastou do poder, pela primeira vez em democracia naquela região, o Partido Socialista Operário Espanhol –, o Vox ganhou envergadura nacional nas legislativas espanholas de abril e novembro de 2019. Já antes da eleição viu o Partido Popular (centro-direita tradicional) e o Cidadãos (jovem partido da mesma área) imitarem-lhe o discurso e os seus líderes, Pablo Casado e Albert Rivera, aceitarem partilhar palco em manifestações pela unidade de Espanha com o chefe da formação ultranacionalista, Santiago Abascal (ex-PP). A crise separatista na Catalunha foi, aliás, um dos motores deste partido, além dos efeitos da crise económica, o descrédito dos demais partidos após casos de corrupção, ou a polémica sobre a exumação do cadáver do ditador Franco. O Vox foi quinto nas eleições de 28 de abril, tendo conquistado 24 lugares no Congresso dos Deputados. A 10 de novembro, a força de Abascal foi a única a poder cantar vitória: subiu para terceiro, com 52 assentos. Meses antes tornara-se indispensável para manter executivos regionais conservadores em Madrid e Múrcia (nesta comunidade autónoma foi o mais votado em novembro). Quando se lhe abrirão as portas da Moncloa?

Libertação de Lula da Silva O antigo Presidente brasileiro saiu da prisão em novembro, ao abrigo de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que impede o encarceramento de condenados antes do trânsito em julgado da sentença. Dado que a sua condenação por corrupção ainda admite recurso, saiu em liberdade. Lula não pode concorrer a eleições, por se encontrar inabilitado pela lei da Ficha Limpa, mas a sua presença física e disseminação mediática das suas intervenções tem peso político. Relembre-se que todas as sondagens o davam como vencedor das presidenciais de 2018, vencidas por Jair Bolsonaro, caso não tivesse sido preso em abril desse ano. Num país extremado e com um Governo que não esconde a nostalgia pela ditadura militar, Lula solto será o maior opositor do atual Presidente e procurará estimular um centro-esquerda desacreditado que não recuperou da derrota. A libertação não o torna mais culpado ou inocente dos crimes que lhe imputam, e a todo o momento pode surgirnova voz de prisão para este ícone da política brasileira.

Manifestações pelo clima Com o mundo a assistir a incêndios como os que devastaram a Califórnia ou a Amazónia, tempestades extremas em vários continentes, cientistas a alertar para o risco de extinção de espécies animais e vegetais, a opinião pública vai despertando para o perigo. Já não há negacionismo que abafe a urgência de agir para não só combater ou abrandar as alterações climáticas, como adaptar a Humanidade a condições de vida que vão mudar nas próximas décadas. Se em fevereiro de 2019 foram mais de 30 os países onde se realizaram manifestações inspiradas pelo movimento de Greta Thunberg, em março desfilaram mais de dois milhões de alunos de escolas em 135 países e, em agosto, 3,6 milhões em 169 países. Já entre 20 e 27 de setembro, na que ficou conhecida como Semana Global pelo Futuro, seis a sete milhões de pessoas exigiram ação imediata. As viagens de barco da jovem sueca e a sua participação em fóruns mundiais dão cada vez mais visibilidade à causa.

Processo de “impeachment” a Trump À terceira será de vez? O Senado salvou Andrew Johnson no século XIX e Bill Clinton no XX de perderem o cargo de Presidente dos Estados Unidos por decisão do Congresso. Nixon saiu antes da previsível destituição. Agora chegou a vez de Trump. A Câmara dos Representantes abriu um inquérito depois de o Presidente, num telefonema em julho, ter pressionado o seu homólogo ucraniano, Volodymir Zelenskiy, a investigar os negócios de Joe Biden, ex-presidente dos EUA no mandato de Barack Obama e candidato proeminente à nomeação pelo Partido Democrata para as presidenciais de 2020. Trump terá mesmo feito depender desse “favor” o envio de um pacote de ajuda militar que suspendeu. A aprovação do processo na Câmara dos Representantes é provável, uma vez que a oposição goza de maioria. Segue-se, caso se confirme, um julgamento no Senado, que só levará à queda do homem mais poderoso do mundo se dois terços dos seus membros assim votarem. Hoje o Partido Republicano tem 53 senadores, o Partido Democrata 45 e há dois independentes próximos dos democratas, o que significa que 20 republicanos teriam de votar contra o Presidente que ajudaram a eleger para que o “impeachment ” se verificasse.

Protestos em Hong Kong Começou há meses com a contestação a um projeto de lei de extradição que permitiria que cidadãos da região autónoma fossem detidos e julgados na China, onde lhes estaria dispensado tratamento mais duro. Mas o descontentamento vai mais longe e a reação das autoridades só acirrou os ânimos dos manifestantes, cuja ação vai bem além da do movimento dos guarda-chuvas, que exigia mais democracia em 2014: invasão do Parlamento, ocupação do aeroporto e de universidades, etc. Rapidamente surgiram reivindicações que vão da demissão da chefe do Executivo, Carrie Lam, a eleições livres (hoje só o são parcialmente) e investigação dos excessos policiais durante a repressão dos protestos. Os jovens de Hong Kong preocupam-se com o horizonte de 2047, ano em que deixam de se aplicar os estatutos especiais negociados, para meio século, quando da devolução do território à China pelo Reino Unido. “Um país, dois sistemas” é fórmula que terá os dias contados se depender de Pequim.

Boris Johnson O eterno ‘bad boy’ conseguiu chegar por fim à liderança do Partido Conservador e do Governo. Oito anos mayor da europeísta Londres, em seguida figura de proa da campanha pelo Brexit e polémico ministro dos Negócios Estrangeiros com Theresa May, é primeiro-ministro desde julho e não hesitou em afastar do Governo os elementos menos inclinados a apoiar a sua versão dura da saída da UE. Surpreendeu ao conseguir, em Bruxelas, uma renegociação dos termos do divórcio com os 27 que poucos julgaram possível. Pelo meio houve controvérsias, como a tentativa ilegal de suspender o Parlamento, envolvendo Isabel II num caso político de que a rainha preferia ver-se distante, ou o terceiro adiamento do Brexit de 31 de outubro para 31 de janeiro, forçado pela oposição. Com eleições à porta (12 de dezembro), o governante assegura que não haverá mais atrasos e é certo que lidera as sondagens, mas caso falhe a maioria absoluta pode tombar perante uma geringonça a favor de novo referendo sobre a magna questão.

Donald Trump O Presidente dos Estados Unidos lançou-se a sério na corrida à reeleição, no mesmo ano em que a Câmara dos Representantes iniciou procedimentos destinados a removê-lo do cargo. O impeachment, motivado por pressões para o Presidente da Ucrânia investigar negócios de um dos seus potenciais rivais nas presidenciais de 2020, marca o fim do ano e o arranque das primárias. Num ano em que a Casa Branca viu sair nomes como James Mattis ou John Kelly, veteranos vistos como a barreira entre Trump e uma série de asneiras, o Presidente enfrenta pela primeira vez uma câmara adversa no Congresso. Em 2019 o líder do país mais poderoso do mundo encontrou-se de novo com o homólogo norte-coreano Kim Jong-un, insistiu no muro na fronteira mexicana, rescindiu o Tratado de Forças Nucleares Intermédias com a Rússia e o Acordo de Paris sobre o clima, reafirmando a repulsa pelo multilateralismo, também patente nos comentários que faz sobre a NATO. Também retirou as tropas do norte da Síria, deixando os aliados curdos à mercê das forças turcas.

Greta Thunberg A adolescente que recentemente visitou Portugal tornou-se cabeça de cartaz da luta contra as alterações climáticas, ao promover as greves escolares à sexta-feira. Se os adultos não cuidam do mundo, defende Greta, para quê aprender? Milhões de crianças e jovens de todo o mundo têm-lhe seguido o exemplo. Convicta, perseverante, por vezes muito zangada – como nas Nações Unidas, no outono passado, após mediática viagem no veleiro de um príncipe do Mónaco –, a jovem sueca é o rosto de um movimento global, que inspira as gerações mais novas, tendo o seu nome sido proposto para o prémio Nobel da Paz. Outros veem neste fenómeno o aproveitamento político por adultos de uma menor afetada pelo síndrome de Asperger, e reagem num tom que vai da crítica saudável a puras expressões de ódio. O assunto que a move é já incontornável no globo, o seu protagonismo também. A revista “Time” coloca-a entre os 100 mais influentes do mundo.

Ursula Von der Leyen Primeira mulher a chefiar a Comissão Europeia, a antiga ministra alemã pega nas rédeas do executivo comunitário num momento crítico para a União Europeia, com o Brexit por resolver e um fortíssimo peso de eurocéticos e extremistas de vários quadrantes em instituições como o Parlamento Europeu e diversos governos de Estados-membros. A nomeação desta ginecologista de formação foi questionada por não ter feito parte da lista de candidatos (Spitzenkandidaten) apresentados pelas grandes famílias políticas da UE ao eleitorado dos 28 Estados-membros, por ocasião das eleições europeias de maio último, mas o nome da chefe passou à primeira em Estrasburgo. Mais difícil foi fazer aprovar os comissários de todos os países (os eurodeputados rejeitaram inicialmente três). Com pastas de nomes inovadores como Economia que Funcione para o Povo ou Promoção do Modo de Vida Europeu, a equipa (pela primeira vez paritária) carece de representante do Reino Unido, devido ao processo de saída deste país da UE.

Ameaça de demissão de António Costa Era outra ‘geringonça’, mas esta foi mesmo contranatura: a direita aliada à esquerda para ceder aos sindicatos e devolver os nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço congelado aos professores. PSD e CDS puseram-se de acordo com PCP e Bloco de Esquerda na comissão parlamentar de educação, mas António Costa ameaçou com a demissão apenas a quatro meses das eleições, por não aceitar uma “coligação negativa” que poderia aumentar a despesa em 800 milhões de euros (contas do Governo). A dramatização funcionou. Rui Rio acabou por recuar, assim como Assunção Cristas, mas os dois partidos seriam muito penalizados nas eleições europeias três semanas depois. Costa fez um aviso que também serve para a nova legislatura: “coligações negativas” com aumentos colossais de despesa levam o primeiro-ministro a escolher a espada em vez da parede.

Défice zero mais próximo Mário Centeno tem batido recordes sucessivos nas contas públicas e prepara-se, este ano, para repetir a proeza com um défice orçamental de 0,1% do PIB. Pelo menos é essa a meta que o ministro das Finanças fixou na última atualização dos números porque, na verdade, o valor até pode ser mais baixo. Basta que, como em anos anteriores, Centeno faça um brilharete e bata a sua própria sombra para que o défice ‘zero’ chegue um ano mais cedo do que o previsto. O veredito só será conhecido no final de março, quando o Instituto Nacional de Estatística divulgar o défice de 2019. Em qualquer caso, num país onde as palavras consolidação, austeridade e défice marcaram as últimas duas décadas, chegar praticamente ao equilíbrio orçamental é um acontecimento digno de nota. Já conseguir saber se a austeridade terminou mesmo ou se ainda por aí anda, é outra conversa. Mais complicada.

Eleições legislativas e fragmentação da AR Era suposto serem eleições sem frisson porque toda a gente sabia quem ia ganhar, mas acabaram por ser umas legislativas cheias de novidades, com o Parlamento mais fragmentado e original de sempre: três novos partidos, um deles de um populista de extrema-direita (que acaba com a excecionalidade portuguesa), outro o liberal mais assumido que se viu em São Bento, a que se soma a personalidade de Joacine Katar Moreira, do Livre. E ainda o crescimento do PAN para quatro deputados. O PS venceu (36,6%) mas não convenceu, ganhou apenas 120 mil votos em relação a 2015 depois de quatro anos passados a repor rendimentos. À direita, uma derrota histórica valeu a menor representação parlamentar desde o 25 de Abril: Rui Rio levou o PSD a bater no chão com o pior resultado desde o início dos anos 80 (27,9%); Assunção Cristas já sabia que o resultado seria sofrível, mas nunca pensou que o CDS ia ter uma votação pior que nos anos do táxi. O PCP somou o pior score em cada uma das últimas quatro eleições (presidenciais, autárquicas, europeias e legislativas) e o Bloco de Esquerda manteve o número de deputados, mas perdeu 50 mil votos. António Costa não quis acordos escritos e apostou na navegação à vista, crente de que para o Governo cair ou os Orçamentos não passarem precisa que as esquerda se una às direitas minguadas.

Entrada em vigor do passe único Em abril iniciou-se uma nova era nos transportes coletivos em Portugal, com a entrada em vigor do passe único. Uma verdadeira revolução, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto – a medida, assente no Programa de Apoio à Redução Tarifária (PART), tem abrangência nacional, mas com maior incidência prática em redor daquelas duas cidades. Agora pode viajar-se nos vários modos de transporte a um preço bem acessível: €30 dentro de um município ou €40 em percursos interconcelhios. Por outro lado, o PART garante um máximo de dois passes por agregado, independentemente do número de pessoas por família. Tal significa que em alguns lares a fatura das viagens casa-trabalho e casa-escola pode ter descido bem mais de um centena de euros por mês. Este novo paradigma de mobilidade traduz-se, para já, na chegada ao sistema de, pelo menos, cerca de 160 mil portugueses. Mas tudo tem o reverso da medalha: a oferta não aumentou em razão da procura, e muitas vezes o serviço é prestado em piores condições, com muitos passageiros em pé.

Mexidas nas TV’s: liderança da SIC e negócio TVI/Cofina Com a contratação de Cristina Ferreira, que nos últimos anos fora a força motriz da TVI, a SIC passou em 2019 a liderar as audiências televisivas, algo que não acontecia desde há uma dúzia de anos. Em novembro, o canal do grupo Impresa alargou a distância para a concorrência, fechando o acumulado do ano com um “share” de 19,1%, ou seja, 3,4 pontos percentuais acima da TVI (15,7%), uma diferença que tem vindo a aumentar ao longo do ano. Esta troca na liderança coincide com um arranjo iminente no tabuleiro do sector. Após duas tentativas de venda frustradas, neste ano foram criados os alicerces da alienação do grupo Media Capital, proprietário da TVI, desta vez ao grupo Cofina. O negócio, que levanta questões sobre a concentração dos media e pluralismo da informação já teve luz verde ou não oposição da Anacom e da ERC, faltando apenas o parecer da Autoridade da Concorrência.

Protesto dos camionistas de combustíveis Os motoristas de matérias perigosas saíram da obscuridade em abril. Até aí, os portugueses desconheciam quem eram estes homens, o que reivindicavam e sobretudo o poder que detinham. Descobriram que afinal podiam ficar sem combustível no carro e não ter como ir buscar os filhos à escola ou deslocar-se para o trabalho. O efeito-surpresa da primeira paralisação que durou três longos dias foi a maior das vitórias para os motoristas: o Governo foi apanhado na curva, os portugueses viveram dias de pânico, atestando os veículos como se tratasse de um armagedão, e a economia tremeu. Insatisfeitos com os acordos pós-greve e travando com os patrões uma discussão pública sobre quebras de protocolos, marcaram nova paralisação em agosto, no pico das férias do verão. Só que desta vez António Costa estava preparado para o pior. O Governo assumiu o papel de mediador nas negociações entre patrões e motoristas e acabou por impor uns serviços mínimos musculados, chamando as polícias e as forças armadas para conduzirem e atestarem os camiões.

SNS em rutura Nunca o Serviço Nacional de Saúde (SNS) teve tantos recursos que tão escassos se revelassem. O maior número de profissionais ao serviço ou até de fármacos e dispositivos médicos disponíveis têm sido cada vez menos suficientes para acudirem a quem precisa de cuidados assistenciais. São muitos os sintomas de um estado crítico: a criação pela Ordem dos Médicos de um mecanismo de escusa de responsabilidade para quem é obrigado a tratar doentes sem os meios para tal; o atendimento urgente em hospitais de fim de linha entregue a internos ainda sem preparação para assistir quem precisa de mãos treinadas; o fecho de serviços fundamentais como a Urgência de pediatria no Garcia de Orta, Almada; a demissão de chefes de equipa nos serviços SOS de unidades altamente especializadas; ou a revelação de um aumento significativo da mortalidade materno-infantil. A montante desta situação, entre outras causas, uma flagrante falta de meios, devido ao fecho da torneira por Mário Centeno, seja pelas crónicas cativações ou pela não autorização de despesas que dependem da assinatura do ministro das Finanças. Muitos outros serviços e sectores públicos atingiram um maior grau de colapso em 2019 (o mais recente foi a penúria mostrada pelas forças de segurança), mas nenhum desceu tão fundo como o SNS.

Turbulência no Montepio Em 2019 é um ano marcante para o Montepio. Tomás Correia – tido como protegido do PS e do padre Vítor Melícias – põe um ponto final numa relação de poder que durava há 11 anos e que se tornou tóxica nos últimos anos. Havia uma forte contestação à sua liderança, envolta em processos de acusação que corriam no Banco de Portugal e no Ministério Público. Tomás Correia viu a sua reputação abalada pela proximidade a Ricardo Salgado e o constructor José Guilherme, o homem que alegadamente deu um presente de 14 milhões ao ex-presidente do BES e 1,5 milhões ao demissionário presidente da Associação Montepio. O cerco apertou-se. Tomás Correia sai para evitar o chumbo do regulador, e deixa uma herança pesada no grupo Montepio. A situação da Associação, que injetou nos últimos anos à volta de 1,7 mil milhões no banco, agravou-se na última década. Depois do BPN, do BES (e depois também do Novo Banco) e do Banif terem ido aos bolsos dos contribuintes, o Montepio pode bem ser o próximo da lista.

André Ventura A exceção portuguesa acabou. No país onde se multiplicaram artigos na imprensa a explicar porque é que a extrema-direita não vingava na opinião pública, André Ventura tornou-se uma celebridade com um lugar garantido no Parlamento. Teve 66,4 mil votos e a concentração de sufrágios em Lisboa levou-o à Assembleia da República. Uma sondagem do ICS/ISCTE publicada pelo Expresso em junho já demonstrava que os portugueses estavam a tornar-se permeáveis ao populismo. Afinal, só faltava um populista competente e convincente. André Ventura está a começar um caminho. Tudo indica que irá crescer. Se o percurso for idêntico ao de outros países europeus, nos próximos anos deverá tornar-se numa da figura de desequilíbrio do regime partidário.

António Costa Há quatro anos, quem se atrevia a apostar que António Costa conseguia levar até ao fim um mandato de um Governo apoiado por uma maioria contranatura? Poucos. Em 2019, com a legislatura cumprida, o líder do PS apresentou-se aos eleitores não apenas com a capacidade de tornar uma derrota em vitória, mas também com a virtude de saber negociar e segurar partidos tão anti-sistema como o Bloco de Esquerda ou o PCP durante uma legislatura inteira (ao mesmo tempo que ia amarrando o PSD em temas onde não havia esquerda). Apesar dos problemas gerados no SNS ou em outros serviços públicos, Costa venceu as legislativas de outubro. A vitória nas eleições foi curta, pois não houve maioria absoluta nem o PS esteve verdadeiramente lá perto. Se o mandato que começa agora parece difícil, tal torna-se mais relativo, pois há quatro anos tudo parecia impossível.

Joacine Katar Moreira Aos 37 anos, consegue a proeza de ser eleita como a primeira deputada do Livre na Assembleia da República. É ainda a primeira “negra, gaga e pobre”, como a própria se descreve, a surgir como cabeça de lista de um partido ao círculo de Lisboa. De ilustre desconhecida a protagonista do espaço mediático, foi um ápice. E, em apenas dois meses, tornou-se um figura da vida política nacional, arrastando-se em sucessivas polémicas e entrando em rota de colisão com o próprio partido. O futuro do Livre é um ponto de interrogação. Mas a entrada em cena de Joacine está para ficar. Pelo menos nos quatro anos desta Legislatura, porque a deputada já garantiu ser “impossível” deixar o assento parlamentar que conquistou nas últimas legislativas.

João Félix Foi o jogador mais importante do Benfica quando o clube começou a ser treinado por Bruno Lage, em janeiro, para celebrar o título de campeão nacional. O sucesso de Félix foi instantâneo, pois logo no seu primeiro jogo (e no de Lage também) marcou dois golos (Rio Ave, 4-2), terminando a Liga com 15 em 26 jogos (21 como titular), nomeadamente dois ao Sporting (um deles, ainda com Rui Vitória) e ao FC Porto. Terminou a época desportivo transferido para o Atlético de Madrid por um número impensável (126 milhões de euros, a quarta transferência mais elevada da história do futebol, e um valor acima do que foi pago por Cristiano Ronaldo), chegou à Seleção A, conquistou o prémio Golden Boy (distingue o melhor jogador jovem do ano) e fez parte da lista final da Bola de Ouro (28.º futebolista do ano).

Jorge Jesus O treinador português chegou ao Flamengo, o clube com maior número de adeptos no Brasil – o país do futebol – e conquistou o Brasileirão a quatro jornadas do fim, 24 horas depois de ter batido o River Plate na final da Copa dos Libertadores, por 2-1. Jesus transformou-se num ícone num país onde praticamente só os locais são ídolos, ultrapassando desconfianças iniciais, e as críticas relacionadas com o currículo, com um futebol de ataque, pressionante, atrativo, derrotando os adversários para, enfim, colher os elogios generalizados dos seus colegas – e da comunicação social. Jesus terá igualado igualado, provavelmente, a atenção social e mediática que Mourinho teve nos primeiros tempos do Chelsea e na conquista da Liga dos Campeões pelo Inter de Milão. Noutro plano, a projeção que o treinador português tem no Brasil já fez em poucas semanas mais pela imagem de Portugal naquele país do que anos e anos de campanhas e/ou de iniciativas diplomáticas.

José Tolentino Mendonça Destaca-se pela originalidade da sua poesia (com uma vasta obra publicada) e pela profundidade do seu pensamento teológico (também amplamente editado), continuando a ser cronista do Expresso. Este ano, enquanto responsável máximo pelo Arquivo do Vaticano, foi o mentor de uma mudança histórica: o arquivo deixou de ser ‘secreto’, abrindo-se a investigadores e ao mundo. A partir do próximo ano será consultável o espólio relativo à vida da Igreja durante todo o período da II Guerra Mundial. Mas é como cardeal, nomeado em outubro deste ano pelo Papa Francisco, que D. José Tolentino se torna mesmo uma figura incontornável do futuro da Igreja. A sua subida meteórica dentro da hierarquia católica – passou de capelão do Rato a arcebispo e depois cardeal em apenas um ano e meio – mostra bem o quanto Francisco o quer ver entre os cardeais que, num próximo concílio, serão chamados a escolher o seu substituto. É um dos três cardeais eleitores portugueses, mas também é elegível.

Margarida Matos Rosa Uma figura desconhecida do mundo mediático, veio meter as empresas na ordem em matéria de concorrência. Desde Abel Mateus, o fundador da Autoridade da Concorrência, que o regulador não tinha tanto protagonismo nem era tão temido. Assume como prioridade o combate aos cartéis e às práticas anti-concorrenciais com impacto significativo nos consumidores. Tem tido mão pesada nas coimas. Os seus três anos de liderança já levaram a coimas de €391 milhões. O verão foi verão agitado em matéria de Concorrência, com coimas recorde à banca (225 milhões) e os seguros (56 milhões) e raides mediáticos a grandes grupos privados na área da saúde por causa dos contratos da ADSE e dos resíduos. Antes o alvo tinham sido as telecomunicações e a distribuição. O objetivo é dissuadir os prevaricadores. Não teme os poderosos, uma atuação a fazer lembrar a influente comissária europeia da Concorrência, Margrethe Vestager. Há, porém, quem admita que ao disparar em tantas direções, Margarida Matos Rosa possa deixar o regulador sem capacidade de resposta na instrução dos processos, abrindo espaço para que as condenações sejam atacáveis em Tribunal.

Pardal Henriques Foi meteórica a passagem de Pedro Pardal Henriques pelo ano 2019. Em abril, o então desconhecido advogado que liderava o recém-criado Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas chefiou uma das greves mais duras para o governo socialista. Bem-falante e com à-vontade suficiente em frente às câmaras de televisão e microfones, foi uma figura vencedora nessa paralisação. Em agosto, no pico das férias de verão, voltou a liderar os camionistas. Mas desta vez, desgastou-se com rapidez no braço de ferro com o Governo e patrões. Declarações polémicas, por vezes contraditórias, acabaram por deixá-lo quase sozinho. À boleia das greves, Pardal Henriques foi cabeça de lista por Lisboa no partido de Marinho Pinto, nas legislativas. Mas as eleições foram um desastre: só obteve 0,17% dos votos.